MOTOCICLISMO

No mundial de motocross, mulheres encaram lama, falta de grana e vaidade



O Campeonato Mundial de Motocross, que aconteceu no fim de semana em Sevlievo, na Bulgária, não se esqueceu da gentileza. As mulheres receberam a honra de abrir o calendário 2011 da categoria. O lema “primeiro as damas”, porém, termina por aí. Se as mulheres encaram a lama dos obstáculos quase em patamar de igualdade com os homens, longe das provas a realidade é bem diferente.




Se os garotos saem das motos enlameados, e parecem orgulhosos disso, as meninas ficam encabuladas. Bicampeã mundial, a alemã Stephanie Laier venceu a etapa de Sevlievo, na Bulgária. Ao saltar da moto, era clara a preocupação com o look. “Quando estou na moto, foco apenas na pilotagem”, disse a alemã, tentando explicar o cabelo desgrenhado após a bateria.




A situação, porém, está longe de ser glamourosa. Patrocínio é incomum entre as meninas. A maioria vai para as etapas de trailer, bancadas por “paitrocínio”. E o cenário ficará ainda pior no futuro. Se na Bulgária, as mulheres competiam na mesma cidade em que rolava o campeonato principal do Motocross, com as categorias MX1 e MX2 (ver quadro), na próxima etapa elas dividirão a pista com a categoria dos veteranos e a MX3. “Essa mudança vai deixar ainda mais difícil encontrar patrocínios”, lamentou Larissa Papenmeier, alemã vice-campeã da etapa.


Alemã é exceção

Rainha das pistas, Stephanie Laier é bicampeã mundial, tem 21 anos – 17 deles pilotando motos – e é uma das poucas do grid com patrocínio oficial de uma fábrica de motos. É integrante da equipe austríaca KTM e pilota uma moto de 250cc, a mesma que Ken Rockzen, atual vice-campeão mundial.


“O público tem se interessado mais pela categoria feminina, mas as provas ainda não são transmitidas ao vivo pela televisão”, explica a alemã, que vem de uma família de motocross. “Meu pai era piloto e sempre me interessei pelas motos desde pequena. Comecei a acelerar uma 50 cc aos quatro anos”, conta. Laier cresceu correndo contra meninos. “Sempre foi muito difícil competir com os homens, mas isso me ajudou a melhorar minha pilotagem”.


Em família, de trailer

Ao contrário da estrela alemã, a maioria das garotas não tem grandes patrocínios e correm mesmo pelo amor. É o caso da sueca Sara Peterssen. Em seu modesto trailer, Petersen limpava os óculos de proteção após o treino classificatório – no qual garantiu apenas o 12º lugar no grid. “Meu irmão corria de motocross e comecei mais pra me divertir mesmo”, relembra a loirinha de 19 anos – andando de moto desde os sete por influência do irmão, também piloto amador.


Sara estava em companhia de seu pai, um mecânico e outra piloto, Fillipa Jonasson. “Somos suecas. Quando vamos para as provas, montamos um box conjunto”, revela Sara, que participa do mundial há três anos. Ela reclama da falta de interesse das grandes equipes em patrocinar mulheres. “Ninguém tem a estrutura da Stephanie (Laier), é mais difícil para nós, garotas, conseguirmos patrocínio das fábricas”.


Sul-Americana na área

Em meio a massiva participação de pilotos européias, a venezuelana Maria Lorca, 21 anos, é exceção. Ela mudou-se para a Europa há duas semanas para participar de toda a temporada 2011. “Neste ano, estreou um campeonato exclusivamente para mulheres na Venezuela. Isso deverá incentivar outras meninas a correr”, dizia ela. No Brasil, por exemplo, não há uma categoria feminina: as poucas meninas que querem competir precisam se alinhar nos grids masculinos.

Apesar de fazer parte de uma equipe bem estruturada, ao lado da italiana Francesca Nocera, Maria ainda não tem todo o suporte dado à companheira. Após os treinos, enquanto falava com a reportagem ao UOL Esporte, a venezuelana limpava a terra de suas botas e fazia uma lista de tarefas para se preparar para a bateria. “Depois da corrida, conversamos mais. Agora tenho muitas coisas a fazer”, pediu a jovem. Infelizmente, na primeira bateria, Lorca sofreu uma queda e teve de ser levada ao hospital com ferimentos no joelho.


Baixinha invocada

Mesmo sem o apoio de uma grande marca, a baixinha Larissa Papenmeier, medindo 1,54 m, tem feito sucesso no Mundial de Motocross feminino. Ela foi a terceira colocada no Mundial de 2010 e, em Sevlievo, foi a vice-campeã da etapa de abertura. “Corro desde os cinco anos. Ninguém na minha família andava de Motocross”, conta a sorridente alemã da pequena cidade de Bünde, hoje com 21 anos.


O pai Kalu lembra que no começo ficou chocado com o hobby da filha. “Quando ela quis competir de verdade, fiquei preocupado e não gostei muito da idéia, mas hoje dou total apoio”, diz. Kalu, um mecânico, Larissa e o cãozinho Milo viajam toda a Europa em um motorhome para competir.


“Além do Mundial, também disputo os campeonatos alemão e algumas provas do holandês de motocross”, revela Larissa, dizendo que viaja praticamente todos os finais de semana. O namorado Victor a acompanha em algumas etapas, mas não veio à Bulgária. “Ele é piloto também, mas como é sulafricano não conseguiu a tempo o visto para vir para cá”, lamenta a pequenina.


Fonte: UOL


©2011 Circuitoesportivo.com - Todos os direitos reservados